|
Resumo/Descrição
|
Entregar aos leitores e leitoras de Paulo Freire o livro que ele escrevia quando nos deixou, em 2 de maio
de 1997, é um momento de grandes emoções. Certamente não só para mim, mas também para aqueles e
aquelas que acreditavam que entre dezembro de 1996, quando publicou a Pedagogia da autonomia, e
maio de 1997, Paulo não teria ficado sem pôr no papel as suas sempre criativas idéias. Não teria, por
quase um semestre, deixado de expressar por escrito a sua preocupação de educador-político. Não se
enganaram os que assim pensaram e esperaram. Agora, se não passadas todas as angústias, dúvidas,
expectativas e tristezas por ele não estar mais entre nós, podemos comemorar com alegria a sua volta às
editoras e livrarias, inicialmente, com o seu último trabalho.
Até então eu não tinha ainda lido as 29 páginas manuscritas das Cartas, uma das formas de comunicação
1
que Paulo tanto gostava de utilizar. Eu apenas conhecia os temas tratados (e os que ele não teve tempo
de escrever), pois sempre estava falando, discutindo e comentando com alegria ou indignação os fatos
sobre os quais estava construindo o seu novo discurso antropológico-político. Foi difícil para mim iniciar a
leitura dessas páginas. Tinha medo. Era como se isso fosse confirmar o fato consumado de sua ausência,
tão doloroso quanto irreversível. Ler um livro incompleto de Paulo implicaria para mim estar novamente
diante de sua morte. Quando uma relação amorosa como a nossa é rompida abruptamente, ficamos, os
que não se foram, perplexos, espantados, estarrecidos, antes mesmo de termos consciência da dor brutal
alojada para sempre dentro de nós; antes mesmo que possamos realizar em nosso espaço do sentir a
perda que acabamos de sofrer. Esses instantes (dias?) são também de um sofrer que nos marca para
sempre tanto quanto o luto consciente. Acreditar na ausência para sempre? Aceitar que o companheiro de
todos os dias e de todas as horas partiu quando ainda tanto queria
|